Celebrado em 15 de maio, o Dia do Assistente Social lembra a defesa das liberdades democráticas e dos direitos sociais na luta de classes. Com caráter sociopolítico, crítico e interventivo, a profissão atua nas relações sociais, no campo das ciências sociais, com intervenções em problemas e questões sociais. Quando a estudante Mariana Lemes Silva ingressou no curso de Serviço Social na Universidade Católica de Brasília (UCB) como bolsista do programa Universidade para Todos (Prouni), não tinha a noção de que era fruto de uma política pública de garantia de direitos, uma das atribuições próprias da área. Ao mergulhar em uma profunda transformação, Mariana foi confrontada com diversos paradigmas pessoais, em especial advindos da religião Católica, que deixou de seguir, e se apaixonou pela defesa e garantia dos direitos à população.
O teste vocacional realizado ainda no ensino médio revelou a aptidão para a área de ciências humanas ou sociais, nada divergente da afinidade pela disciplina de Sociologia. Um dos trabalhos do assistente social é planejar e executar políticas públicas e programas sociais voltados para o bem-estar coletivo e para a integração do indivíduo na sociedade. “A sociedade enxerga o Serviço Social como caridade, composta por pessoas ‘boazinhas’, mas o curso é uma desconstrução da realidade, na qual devemos aprender a enxergar além dos obstáculos e sermos críticos com o que é imposto. É preciso desenvolver uma capacidade teórica de um curso superior, com bases filosófica, psicológica, política e sociológica”, argumentou Mariana.
Hoje, aos 22 anos, Mariana Silva está concluindo o curso na UCB após retornar de um intercâmbio no Chile. Em 2016, a jovem teve a oportunidade de conhecer a atuação do assistente social em outro país. Para ela, a principal diferença é que o Chile possui um capitalismo mais desenvolvido do que o Brasil e, portanto, o trabalho é voltado ao setor privado nas empresas. “É bem diferente da nossa realidade. Nas empresas, tentamos conciliar a solicitação das empresas com as demandas profissionais, sob o ponto de vista da legislação e de acesso a direitos. É possível atuar em benefícios e previdência social, com a sensibilização de direitos dos idosos na aposentadoria”, pontuou.
A estudante percebeu ainda a magnitude e a profundidade da literatura brasileira sobre a área. “Os chilenos se baseiam numa visão psicológica do Serviço Social enquanto, no Brasil, já temos nossos próprios teóricos e um ensino próprio fundamentado. Fiquei impressionada em como eles absorvem nossa literatura e leem os autores brasileiros, pois, no país, não há teóricos na área”.
Para ela, na perspectiva do Serviço Social, a meritocracia, que se baseia no merecimento e no mérito como razão para se conquistar posições hierárquicas, não se sustenta para todas as classes sociais. “Sempre estudei em escolas públicas e me sinto uma privilegiada por ter conseguido ingressar numa instituição de ensino superior particular renomada, mas isso representa uma exceção. Por trás de toda realidade existe um sistema de controle, na política e em tomadas de decisões, de modo geral. Quero dizer que é por meio do assistente social que as pessoas podem, de certa maneira, alcançar seus objetivos, seja pelos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) ou Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), para que o trabalhador tenha uma melhora da qualidade de vida. Assim, conhecemos os serviços ofertados e garantimos que as pessoas tenham acesso”.
Pensamento nas transformações pessoais e sociais
De personalidade caseira, Mariana gosta de ler, assistir a filmes e seriados de TV e se considera uma futura assistente social por amor, por formação e por ação. Atualmente, a atuação do profissional é ampla, podendo se estender na saúde, na previdência e na área socioeducativa. “Com o serviço social, tive uma nova visão de mundo, de mim mesma e das pessoas ao meu redor. Historicamente, a origem do curso está intimamente ligada à religião Católica, pelos atos de caridade e assistencialismos aos trabalhadores promovidos por moças de família da Igreja. Quando me desvinculei do catolicismo, pude ter uma visão da pobreza e da questão de gênero e racial. Percebo que o sistema não visa o bem-estar e o benefício das pessoas, portanto, pretendo lutar em defesa desses direitos”.
Mariana fez parte de movimentos estudantis organizados e, no campo de estágio, atuou na área socioeducativa com adolescentes infratores, quando encontrou sua missão com os jovens. Essa vivência contribuiu para que ela conseguisse relacionar o problema da infração, recorrente entre jovens, a realidades em comum, ligadas à pobreza e à falta de direitos. “Eu tinha meus preconceitos e meus medos. A criminalidade e a violência têm justificativas para acontecer e estão associadas à falta de educação. Gostaria de trabalhar com a juventude, porque é uma idade de muitas possibilidades. Para conquistar espaços, os jovens têm que ser mais ativos politicamente”, defendeu.
Como reflexão, a estudante traz o tema da redução da desigualdade social para o acesso aos direitos. Para ela, no curso são quebrados paradigmas e mitos em relação à pobreza e à meritocracia. “Às vezes, por mais que a pessoa lute pelos seus objetivos, se não houver apoios externos, ela não conseguirá avançar. Ou seja, a desigualdade pode ser tão grande que terei de dar milhares de passos a mais do que uma pessoa que sempre estudou numa boa escola, fez viagens internacionais e possui um capital cultural enorme. Com certeza ela terá mais oportunidades e um melhor desempenho geral”, disse.