Em pouco tempo, o olhar penetrante de Rogério Soares de Araújo fez os estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília entenderem: ali tem história. De fato, a trajetória do agente social e apresentador de TV foge do comum. Em palestra, promovida pelo professor Alan Oliveira, da disciplina Políticas e Sistemas de Comunicação, Rogério relembrou dos anos de declínio e a importância da mídia para dar um novo sentido à vida. “Eu sempre soube aproveitar a mídia e ela que me trouxe credibilidade”, ressaltou Barba – como é conhecido.
A história de Rogério tem como palco principal a rua. Os pais o abandonaram em uma calçada em São Paulo e, aos 14 anos, ele começou a trabalhar em uma rádio, cuja sede era no orfanato onde morava em Cajuru-SP. A primeira carteira assinada foi em uma rádio em São Carlos. No entanto, a carreira foi por água abaixo ao se envolver com drogas nos eventos em que trabalhava. “Perdi minhas responsabilidades, meu emprego e fui morar nas ruas”. Depois de passar por várias cidades, Barba chegou em Brasília onde conseguiu uma oportunidade para recomeçar.
Cansado daquela realidade, Rogério tentou sair do mundo das drogas e foi internado 15 vezes, mas foi só com o Projeto Futuro Esperança que ele teve o apoio necessário e encontrou amigos. “Depois de 30 anos voltei a estudar e pude terminar o ensino fundamental e médio”, comemorou. Para completar, o projeto social da revista Traços reavivou o amor de Barba pela comunicação. A iniciativa apoia pessoas em situação de rua, que vendem revistas e recebem parte dos lucros. “Eu entendi que a revista é a mídia e a minha voz na rua”, afirma.
No projeto da Traços, o agora agente social assumiu uma postura de liderança entre a população de rua, principalmente trazendo novos trabalhadores para o grupo de vendas da revista. Dessa forma, Rogério conquistou o interesse da empresa e, depois de décadas, conseguiu ter a carteira de trabalho assinada novamente, dessa vez como agente social para o mercado de trabalho.
Junto à revista Traços, Barba ajudou muitas pessoas a recomeçarem suas vidas após sair das drogas, como Donizete França, que viveu anos na Cracolândia, mas superou o vício. “Com as vendas da revista Traços, eu consigo tirar dinheiro para o meu aluguel e para a pensão do meu filho”, disse Donizete na palestra.
Novas oportunidades
A identificação com a mídia fez com que Rogério se destacasse. “Um amigo sempre me dizia que eu tinha potencial e que eu ainda iria para a TV. Assim surgiu a ideia de começar o canal ‘Barba na rua’”. Após um tempo com o canal no ar, um convite: a TV Comunitária de Brasília propôs a criação do programa ‘A rua tem seus traços’. Como ambos os nomes já sugerem, são exibições que trazem, em grande parte, histórias e dão voz a quem já passou pela rua.
O segredo de Rogério para o sucesso? “Uma coisa importante na comunicação é ter caráter. Hoje, eu tenho credibilidade porque eu uso a mídia da minha maneira e não defendendo interesses de terceiros”. Mais importante ainda é acreditar. “Se eu cheguei até aqui é porque eu acreditei no meu sonho e tive quem acreditasse nele também”, relatou Barba.
Com toda essa reviravolta em sua vida, o agente social e apresentador de televisão agarrou a oportunidade e se tornou um representante importante das ruas, em que lidera várias frentes em projetos sociais e culturais, como a ONG Futuro Esperança e a Associação Cultural Namastê.
Por fim, o comunicador ressaltou a importância da mídia para dar voz às pessoas e como a usou para conseguir direitos à população de rua. Aos estudantes de Jornalismo, Barba lembrou que quem domina o país são os veículos de comunicação e, portanto, cada um deve pensar na mídia que deseja para o futuro.